Pessoas admiráveis.

Onde encontrá-las?

Acredito sinceramente que elas estão por toda a parte.

Você pode achá-las em laboratórios trabalhando arduamente a fim de desvendar os mistérios da ciência e salvar milhares de vidas, em salas de aula influenciando gerações, em uma esquina vendendo cafezinho ou entregando correspondência de porta em porta.

Quando comecei a escrever hoje, tentei encontrar o que as pessoas admiráveis têm em comum.

Ele era a simpatia ambulante.

 

Pequenino, cabeleira farta, olhos verdes e vivos tinha sempre um sorriso, um ensinamento, um chocolate.

Por onde ia, todos o conheciam.

Professor, cantor, maestro, esposo, pai, irmão, tio, amigo.

Tudo aquilo em um homem só.

Um homenzinho pequenininho e bom de papo.

Sua maior arma, a música.

Acreditava que ela transformava vidas, fazia as pessoas melhores, contribuía para o crescimento de quem a ela se dedicasse.

E, por isso, a ensinava.

Todo o tempo.

O tempo todo.

Seus filhos foram a ela apresentados ainda na infância e a ela se dedicam até hoje.

Os cinco.

Durante a semana ensinava, sua arte na escola.

Na melhor e mais conceituada escola da cidade.

Ensinava analfabetos.

Entravam ali vendo apenas bolinhas em cima, embaixo, mais perninhas, menos perninhas, bolinhas pretas e brancas.

Nada mais.

Saiam lendo, cantando, tocando.

Fazendo, sentindo, sendo música.

No fim de semana, o coral.

Igreja.

“Quem pode cantar com você?”

– Ué, você pode. O ensaio é hoje, às 15h.

Quem quisesse podia chegar que era acolhido, bem tratado.

– Você sabe cantar?

“Sei.”

– Ensaio às 15h. E você, não é amigo dele? Por que não vem também?

* Não sei cantar.

– Ué, vem também, eu te ensino.

E ensinava mesmo!

E, quando o ensaio acabava no sábado, bem depois das 17h, ele já combinava e convidava para a aula de teoria no domingo de manhã.

“Onde?”

– Lá em casa, às 8h.

E, nessas aulas “lá em casa”, tinha pão de queijo, chazinho, rapadura, risada, acompanhamento feito pelos papagaios…

Isso, papagaios.

Ele tinha, em uma gaiola bem grande, três papagaios que solfejavam melhor que qualquer aluno que, por ali, passou.

Quando as músicas eram ensaiadas, eles cantavam juntos.

Naquelas aulas, tinha-se a garantia de aprendizado e alegria.

Ao longe, podia se ouvir o crescimento de seus alunos.

E quem levava pãozinho e chazinho, caladinha sempre, era sua esposa e fiel escudeira. De quando em vez, durante uma conversinha na hora de ir embora, um aluno ouvia dela o mais delicado dos elogios:

# Eu estava te escutando lá da cozinha, você canta muito bem – dizia baixinho em forma de carinho.

O conhecimento do mestre era algo que nunca foi guardado, muito menos reliquiado.

Sua casa, sempre aberta, era refúgio e porto seguro para quem dele precisasse.

Seu conhecimento e sabedoria eram para quem dele se aproximasse.

Ele acolhia quem queria cantar e não sabia, quem tinha fome em aprender, mas também, fome de pão, abrigava quem queria tocar um instrumento mas não tinha onde se abrigar.

Tudo que ele tinha era seu caso você precisasse.

Pensando em pessoas admiráveis, me lembrei dele e vi o que elas têm em comum:

As pessoas admiráveis se doam para quem delas precisam.

Estendem a mão, ajudam, acodem.

Pessoas admiráveis vivem para servir, fazem o bem sem olhar quem recebe o bem que fazem.

Vivi Antunes é ajuntadora de letrinhas e assim o faz às segundas, quartas e sextas no www.viviantunes.com.br

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