Uma das muitas imagens chocantes do atentado na Somália Reuters

É até educativo acompanhar a seletividade da indignação das pessoas em assuntos de grande repercussão, como atentados, por exemplo. Você já reparou que a mídia dada para o atentado na Somália foi muitíssimo menor do que qualquer outro visto nos Estados Unidos e Europa? É uma separação racista mesmo: se morrem brancos da Inglaterra, França, EUA, a comoção é generalizada globalmente. Mesmo que haja um número de mortos infinitamente menor do que aquele que vimos em Mogadíscio, capital da Somália.

Veja só: no país africano morreram pelo menos 300 pessoas, com mais de 500 feridos. Tudo foi causado por um caminhão-bomba que, no último sábado (14), destruiu vários prédios ao seu redor. Foi uma devastação. Imagine se algo do tipo é feito em Londres, Paris ou Nova York. Seria assunto para mais de um mês seguido, com diversos desdobramentos, correspondentes internacionais trabalhando dia e noite, coberturas longas e indignação por todos os lados. Veríamos campanhas, correntes de ajuda, mil demonstrações de solidariedade, histórias detalhadas de personagens envolvidos na tragédia, descobriríamos heróis e acompanharíamos com atenção máxima cada resgate de cada ser humano.

O que de tudo isso estamos vendo em relação à Somália? Alguém trocou o avatar do Twitter? Alguém deu início a uma campanha? Mark Zuckerberg mostrou no Facebook sua tristeza e indignação? As mortes em Mogadíscio foram manchetes em quantos jornais ao redor do mundo?

É triste notar a falta de atenção e de importância que damos (nós, ocidentais) a este assunto por se tratar de um país pobre, africano e com população majoritariamente negra. As próprias redes sociais são um reflexo disso. A palavra “somália” virou trending topic? Sim, apenas no dia seguinte, quando as pessoas aparentemente “acordaram” para o fato de que mais de 100 pessoas já haviam morrido até aquele momento. Quer dizer, no sábado, quando eram “só” 20 mortos o caso não repercutiu. Afinal, o que são 20 mortos num país qualquer da África, né?

Mesmo após esta contagem monstruosa de 276 mortos e mais de 300 feridos, a consternação mundial ainda não aconteceu. A Somália continua tendo pequenos destaques em telejornais e em portais noticiosos. Não há uma hashtag nos TTs, não há correntes no Facebook, não há mensagens nos whattsapp familiares, não tem ator hollywoodiano chorando e se mobilizando.

Restou para a própria população local fazer crowdfundings para ajudar as famílias que tiveram seus lares destruídos. Sobrou para eles próprios a tarefa de se mobilizar para encontrar desaparecidos.

O que choca aqui é ver que ninguém se importa muito com o que acontece na África em geral. Afinal, são lugares que muitos de nós nunca estivemos em nossas férias. Diferentemente de Madrid, Paris, Londres, Manhattan. Temos muitas fotos nossas nestes pontos turísticos. Quantos de nós já foi para Mogadíscio?

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