Ela foi a primeira mulher a presidir o Tribunal Superior Eleitoral. No próximo ano, assumirá a presidência da mais alta Corte de Justiça do país. A mineira Cármen Lúcia Antunes Rocha se considera uma juíza 24 horas por dia, tamanha a dedicação aos 1,6 mil processos que tramitam por seu gabinete. Acorda às 5h15, trabalha até 18 horas por dia. Mas também está atenta ao que acontece longe do suntuoso palácio do Supremo Tribunal Federal. Gosta de dirigir o próprio carro, frequentar o mercado central de Belo Horizonte, saber o preço dos produtos nas prateleiras. Cármen Lúcia assegura que o juiz é sensível às demandas da população, mas deve cumprir o compromisso com a Constituição. “Na hora de julgar, não posso olhar senão para o que está no processo e qual a lei se aplica”. Ela acredita que a insatisfação popular se deve à ineficiência das políticas públicas, que não asseguram os direitos estabelecidos pela lei. E entende que o brasileiro precisa dar um passo além de reclamar. “As pessoas de bem têm que reagir e agir para mudar a situação e não de abandonar as coisas como se não tivessem a ver com elas.” Apesar da grave crise política e econômica, a ministra considera que o país passa por um amadurecimento. “Não há risco institucional.” Nesta entrevista ao Correio, admite que há preconceito contra mulher no Judiciário.

A senhora citou recentemente que o momento exige que os homens de bem tenham a ousadia dos canalhas… O que quis dizer?

Essa frase não é minha. Citei o (Benjamin) Disraeli. Meu pai gosta de repetir essa frase e saiu como minha. Acho que nós nos conformamos… Talvez a palavra nem seja conformar. As pessoas saem às ruas e começa a ter muito assalto. Ao invés de tomar providências e reivindicar mais segurança, a pessoa se tranca dentro de casa, põe mais alarme. E deixa a rua para o assalto acontecer. A vida não pode ser desse jeito, porque senão o mal vence o bem. A frase do Disraeli é importante por isso. As pessoas de bem têm que reagir e agir no sentido de mudar a situação e não de abandonar as coisas como se não tivessem a ver com elas. Os assaltantes, traficantes, acabam tendo uma audácia muito maior porque sabem que as pessoas não vão reagir. Então, é preciso que quem seja de bem tenha a audácia para também reagir.

A frase, num contexto de crise nacional, se encaixa neste momento?
Escuto isso desde menina. Desde sempre, temos situações que são como essa em que as pessoas achavam assim: já que estão ocorrendo problemas com políticos, a gente não se mete em política. Então já que a rua está perigosa, não vou sair. Se a escola está ruim, ponho meu filho numa escola particular e não tomo conhecimento. No que disser respeito ao outro e à sua vida, você tem que agir. O melhor país do mundo ou o pior país do mundo não caiu do céu, nem nasceu do inferno.

É uma questão cultural?
O brasileiro está aprendendo a se incomodar e a se desincomodar há relativamente pouco tempo. Tivemos grandes manifestações na década de 1960, a famosa passeata dos 100 mil. Tivemos em 2013, com novas manifestações. Mas, em geral, o cidadão brasileiro vem sendo individualista, não pensa na sociedade, não quer participar.

No Congresso eles também pensam mais em si?
Não saberia dizer se hoje é muito diferente do que foi antes. A percepção, em geral, é de que pensa-se muito pouco no que o povo realmente precisa. O momento, no Brasil, não é de dizer o que o Estado está fazendo por meio de seu legislador, de seu político, de seu juiz. O momento é de perguntar o que nós, cidadãos, estamos querendo, que país queremos ter e o que fazer para ter isso.

A população reclama dos Poderes constituídos, por ajudarem muito pouco. Há uma acomodação em geral ou só do cidadão?
A acomodação é geral. Há uma certa acomodação incômoda. Porque não sei se há verdadeiramente a certeza de que o povo não sabe muito bem pensar de maneira coletiva o que é melhor para o país. Não tivemos muito esse aprendizado. Cidadania e democracia se apreende. Segundo, a ideia de solidariedade é que me faz pensar num país como um todo. Na hora em que eles falam, querem que os Poderes constituídos, Executivo e Legislativo, ouçam. Não sei se ouvem e se dão a resposta adequada.

E o Judiciário?
O Judiciário tem que fazer o que a Constituição determina. Não está no nosso alvitre decidir o que a população quer. Muitas vezes, a gente vota contra a gente mesmo. Já votei contra mim, mas fico ao lado da Constituição. Senão, não se tem uma segurança jurídica. Muitas vezes, o Supremo é contra o majoritário para garantir uma segurança de direito.

Fonte: Correio Braziliense