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Entrevista franca com o bispo diocesano de Grajaú

Quando questionado se tinha certeza de sua vocação na época em que ingressou no seminário, aos 12 anos, ele respondeu.
Nascido na cidade de Gazzaniga – região da Lombardia, província de Bergamo, Itália, Franco Cuter, filho de Giuseppe Cuter e Angela Perletti, é o segundo filho numa família de cinco irmãos.
Hoje, com olhos firmes e timidez exposta, afirma com convicção que a forte presença dos frades capuchinhos em Bergamo foi fundamental para o amadurecimento de sua vocação sacerdotal que começou aos 12 anos de idade, data marco de seu ingresso no seminário dos capuchinhos da Lombardia.

Quando questionado se tinha certeza de sua vocação na época em que ingressou no seminário, aos 12 anos, ele respondeu. “Claro que tinha. Eu já ingressei sabendo o que queria”. Ordenado presbítero aos 26 anos de idade, padre Franco trabalhou apenas 16 anos na Itália, pois sua missão se estenderia mesmo em terras brasileiras.

Em 1982 o religioso da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos (OFM), Franco Cuter, chega ao Brasil e assume a Vice-Província de sua ordem religiosa que, na época, ainda era ligada à sua Província de origem na Lombardia. Na mesma época o frade assumiu também a formação de uma equipe de seminaristas até 1989 no bairro do Anil. Anos depois, em 1995, padre Franco assume a paróquia do Anil de onde sairia apenas com a nomeação de bispo da Diocese de Grajaú, Maranhão, pelo então papa João Paulo 2º.

“Ele é nossa paz”. Este foi o lema escolhido por dom Franco Cuter, ao assumir a Igreja Particular de Grajaú. “Eu escolhi este lema com base em passagens bíblicas, onde o apóstolo Paulo relata a separação do muro entre gentios e judeus. Meu objetivo, da mesma forma que Paulo, é unir índios e brancos na região de Grajaú, pois as tensões sempre foram grandes”, revelou.
Sobre a 46ª Assembléia Geral da CNBB, que este ano teve como tema central a ser discutido as

Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, documento elaborado em cada 4 anos para nortear a evangelização da Igreja, dom Franco expôs que antes de ser bispo ficava imaginando como a Igreja do Brasil conseguia organizar um evento que envolve centenas de bispos.

Entre os dias 2 a 11 de abril, em Itaici, Indaiatuba (SP), ele participou pela 11ª vez do evento. Nessa entrevista franca, concedida em 5 de abril, ele conta sua experiência nas assembléias que participou, sua atuação por 10 anos à frente de uma diocese missionária e sobre a cidade Grajaú e seu atual contexto político.

Com a palavra, o bispo diocesano de Grajaú.

Grajaú de Fato – Por que há necessidade da aprovação do novo documento das Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil?

Dom Franco Cuter – O novo documento é necessário porque dá os rumos que a Igreja do Brasil quer trilhar, mostra os caminhos e faz parte de uma tradição de nossa Igreja. É um documento que traz perspectivas, orientações, inquietações e isso é extremamente útil. As Diretrizes chegam para reforçar as idéias do Documento de Aparecida, enfocando a nossa realidade e a Igreja da América Latina.
GF – E na Diocese de Grajaú – como as Diretrizes são aplicadas?

Dom Franco Cuter – Essas Diretrizes são aplicadas a partir do momento que nos dão idéias e ajudam a refletir e tomar consciência dos caminhos que a Igreja quer trilhar. Mas nem sempre é fácil transformar essas idéias em algo concreto, pois depende muito da realidade de cada diocese.
GF – Quem foi dom Aloísio Lorsheider para a CNBB?

Dom Franco Cuter – Foi um grande homem que norteou a caminhada da Igreja do Brasil juntamente com dom Ivo Lorscheiter e dom Luciano Mendes. Não os conheci em suas grandes fases, mas a santidade, a fé, o compromisso me impressionaram muito. A figura de Aloísio Lorscheider era de uma pessoa que queria uma Igreja comprometida com a realidade e a pobreza do povo – aberta e solidária com os problemas. Foi um homem de fé que levou a sério sua missão e o reino de Deus. Na assembléia que ele pregou o retiro eu percebi nele a fé e um homem cheio de Deus e entusiasmado que acreditou na missão. A atitude fraterna, a disponibilidade e o respeito pelas pessoas eram claros nele. A presidência da CNBB que teve dom Aloísio à frente foi muito voltada para o social, para o povo, para a teologia da libertação. Tudo com base numa vida de fé.

GF – Pela 11ª vez o senhor participa da Assembléia Geral da CNBB. O que o senhor tem a dizer sobre essa experiência?

Dom Franco Cuter – As assembléias são momentos importantes que eu tenho a oportunidade de conhecer a realidade da Igreja do Brasil: os problemas, as esperanças, as perspectivas, as orientações. Isso porque todos os bispos do país estão presentes e a alegrias são muitas por me perceber membro dessa Igreja com realidades tão diferentes. É na Assembléia que eu percebo as belezas, as riquezas e também os problemas que preocupam a Igreja. O clima fraterno também é um ponto muito importante.

GF – Nos últimos anos vem ganhando voz o discurso de que o estado brasileiro é laico. O senhor não acha que esse discurso é uma forma de calar a voz da Igreja de se pronunciar sobre determinados assuntos?

Dom Franco Cuter – Primeiro temos que entender o que é laico e o que é laicismo. Muita iniciativa é laicismo e não laico. O estado laico tem consciência da presença de diferentes orientações religiosas e respeita e abre o espaço para todas. Já laicismo é se colocar contra e não perceber os valores e o sentido das religiões. Sendo assim, o laico não é uma ameaça ao nosso mundo de hoje numa sociedade pluralista que tem diferentes opções religiosas e culturais. Portanto, esses discursos são laicistas e não laicos.

GF – E sobre sua experiência na Igreja de Grajaú?

Dom Franco Cuter – Primeiro temos que ter em conta que a Igreja de Grajaú tem o espírito missionário e é uma Igreja que não tem estruturas sólidas para assumir responsabilidades de sua vida. Não tem ainda padres da terra bem preparados para assumir sua missão, nem recursos financeiros. Tudo isso é influenciado pela nossa realidade de interior do Maranhão.

GF – O desafio é grande.

Dom Franco Cuter – É grande porque é uma Igreja ainda em construção. É por isso que temos que ter paciência com os pequenos passos que podemos dar, porém percebemos que os passos estão sendo dados na direção certa. Temos como positivo as Santas Missões Populares (SMP) e iniciativas de formação com os leigos. Mas a maior dificuldade é preparar um bom presbitério. Outro desafio é fazer com que nossos leigos se sintam protagonistas da missão da Igreja.

GF – Quais as maiores necessidades do povo do Maranhão?
Dom Franco Cuter – Um grande desafio é a abertura social que deve andar junto com a fé. Há uma falta de compromisso no Maranhão com o sofrimento do povo. Isso gera uma grande dificuldade para cativar as pessoas a se fazerem presentes na Igreja. Se a vida é cheia de problemas a tendência é não participar por falta de perspectivas, principalmente para nossos jovens.

GF – O senhor atribui essas problemáticas a quem?

Dom Franco Cuter – Às raízes históricas. À escravidão e às figuras de poder que estão aí. A confluência de raças também faz parte desses problemas com a presença de nordestinos e indígenas. Isso gera dificuldades de integrar as várias culturas. A falta de comunicação também deixa a cidade isolada e o povo se torna passivo. Não há questionamento e às vezes nem pode questionar mesmo, pois essas pessoas têm que viver.

GF – Qual o cenário político de Grajaú para as eleições municipais de outubro?

Dom Franco Cuter – Não tenho ainda bem claro quem são os nomes. Penso que as eleições serão fundamentalmente um confronto para os dois grupos. Mas não sei prevê como serão os resultados, até porque ainda é muito cedo. Porém mudar o quadro político de Grajaú é difícil porque é preciso que a população aprenda a ter mais peso, mais força e se faça mais presente. É um trabalho que exige mais tempo e educação com base na cidadania. Para a concretização da democracia não basta votar, é preciso que o povo se sinta envolvido. A sociedade civil deve se organizar e não aceitar tudo.

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