PADRE MARCOS BASSANI

Quando acontece a recorrência de um aniversário, sempre podemos oscilar entre dois perigos: se deixar levar pela mera comemoração, multiplicando discursos de circunstância e frases retóricas, normalmente mentirosas e vazias; ou, por outro lado, se deixar prender somente num exercício de avaliação sobre o tempo que se passou. Como sempre na vida, também neste caso, qualquer um dos extremos não daria razão da complexidade e riqueza da vida.

Com certeza, para quem vem de fora, ainda mais se estrangeiro, chegando nestas terras, logo dá para perceber a força e a coragem dos moradores destas terras, em particular dos primeiros que chegaram. Nestes primeiros anos que passei em Alto Brasil, sempre procurei conversar com os primeiros moradores, que chegaram aqui. Com certeza quarenta e cinco anos nem se comparam com duzentos e quatro anos. Mesmo assim, me parece, que estas conversas revelam dinâmicas constantes nestes processos de primeira colonização.

Para mim, que fui criado num contexto aonde a palavra colonização nem mais se usa, estas narrativas dos primeiros moradores ressoam, aos meus ouvidos, com traços quase épicos. Sempre me chamou muito a atenção a bravura daqueles homens e mulheres, que tiveram a coragem e a força de entrar em terras ainda selvagens; a capacidade deles de se adaptarem a condições geográficas muitas vezes hostis; a preocupação deles em celebrar a fé de seus antepassados, mesmo sem poder contar com a devida assistência da hierarquia da Igreja. Em síntese fazendo memória da povoação das terras grajauenses significa, em primeiro lugar, destacar a força e a bravura de muitos homens e mulheres, que regaram com seu suor toda esta região; até que este traço da dureza e da obstinação ainda permanece muito nos atuais moradores.

Mas, enquanto estou escrevendo estas poucas linhas, aparece na minha mente uma certa dificuldade que eu colocaria com esta pergunta: por que celebramos os 204 anos? Será que antes não tinham moradores em Grajaú? Ou, ainda, só queremos festejar e celebrar a chegada dos “brancos” em Grajaú? Por isso, bem sabendo da dificuldade de reencontrar os vestígios da primeira presença humana nestas terras, precisamos, pelo menos, falar destes 204 anos com um olhar maior, para que eles não sejam excessivamente “pintados de branco”…

Neste sentido, lembrar a chegada do primeiro homem branco em Grajaú, nos obriga a uma reflexão maior sobre o modelo da colonização europeia e portuguesa em particular. Aí descobrimos que esta colonização não foi sempre sinônimo de civilização e, ainda mais, de humanização. Em particular, para os antigos moradores brasileiros de Grajaú, a chegada do homem branco foi marcada pelo derramamento de muito sangue, até o extermínio quase total deles: somente o povo Canela sobreviveu, mas já estamos mais na região de Barra do Corda. Uma civilização que não sabe conviver com o que é diferente dela, na verdade vive uma guerra de conquista em todos os sentidos.

Esta reflexão não pretende apontar o dedo contra ninguém, ao contrário do que dizem alguns descendentes daqueles primeiros colonizadores. A este nível o problema não é somente de ética individual, quem foi bom e quem foi ruim. Esta questão tem a ver com o tipo de civilização que foi trazida. Em outras palavras muitas vezes os primeiros colonizadores destes interiores “selvagens” eram simplesmente a continuação da colonização, iniciada e incentivada pela coroa portuguesa no seculo 16 e que vem continuando até hoje. Que colonização é essa? É a colonização depredatória, que vê nos territórios brasileiros um imenso “eldorado”, a terra do ouro, devido a seus imensos recursos naturais, que devem ser explorados e aproveitados, por parte de quem quiser, sem regra nenhuma.

Este tipo de colonização é tão desumana, que na maioria das vezes, vitimiza os próprios colonizadores. Assim, quando se trata de aproveitar das riquezas das terras indígenas, que seja a madeira ou qualquer outro tipo de minério, o “homem branco” se agrega em torno de uma identidade étnica e cultural, para reivindicar o direito de desfrutar destas riquezas; e para não falar só de Grajaú, podemos constatar essa tendência nas articulações do Congresso Nacional em torno da PEC 215.

Porém, quando, de um modo ou de outro, todas estas riquezas, que sejam de Grajaú ou do Brasil em geral, se tornam disponíveis, aí a identidade e a igualdade do “homem branco do Brasil” desaparece, porque alguns se acham “mais brancos que os outros”; ou seja, a elite, que governa o Brasil da Colônia até hoje, de Brasília até Grajaú, esta elite não aceita repartir de forma justa e solidária as riquezas do “Eldorado brasileiro”. É só olhar os espantosos índices da desigualdade no Brasil e a extrema precariedade de serviços básicos em que vive a grande maioria do povo brasileiro. Quando uma mulher, doente de câncer em fase terminal é obrigada a voltar de São Luís em um ônibus de linha, se arrastando e vomitando até a sua casa, para morrer no dia seguinte, é evidente que as riquezas de Grajaú não são para todos os grajauenses. Isso aconteceu em Alto Brasil, município de Grajaú, poucas semanas atrás.

Voltando aos nossos 204 anos, se no início do artigo destaquei a bravura e a coragem dos moradores destas terras, a esta altura não posso não lamentar como a fartura desta região despertou o egoísmo e a ganância de alguns inescrupulosos, que colocaram seus interesses e seus lucros acima de tudo. Desta forma as riquezas naturais, muitas vezes se transformaram em dinheiro nas contas de poucos, em lugar de se tornarem recursos a serviço de um desenvolvimento justo e integral de toda população.

Essa situação poderá ser mudada somente a partir de um novo protagonismo da sociedade civil, que aprenda a discutir e se posicionar sobre tudo o que é público; de maneira que tudo o que patrimônio público, desde os recursos naturais até os recursos federais, sejam gerenciados de forma transparente e a serviço de toda a população, tirando-os do monopólio de alguns politiqueiros a serviço de uma restrita elite econômica. Assim, “o Eldorado” se tornará realidade para todos e não somente privilégio de poucos.

*Padre Marcos é italiano, Vigário Paroquial do Alto Brasil, Coordenador Diocesano da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e colunista do Jornal Grajaú de Fato

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