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Artigo: Clariceando

ALINE LIMA RODRIGUES

“Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra sempre”. Essa frase é de um texto de Clarice Lispector. Considero esse pensamento tão escandalosamente lúcido, que chega a ser digno de uma camisa de forças. As palavras de Clarice geralmente têm esse poder, elas são reveladoras, perturbadoras, expõem os mais obscuros cantinhos da alma, a gente vai lendo e se assombrando como tudo vai se mostrando, se revelando, se “clariceando”. E convenhamos, tanta clareza assim, beira o raiar da mais completa insanidade.

A genialidade tem mesmo uma dose de loucura, o genial muitas vezes consiste em dizer o óbvio, aquilo que de tão simples e evidente torna-se complexo e difícil de ser percebido para a maioria de nós. Vai me dizer que isso não é muito louco?

Infelizmente ver tão longe, costuma custar caro a esses espíritos iluminados e inquietos, que não raramente passam pelo julgamento e desaprovação dos mais comuns, ou ainda de tão intensos consomem-se na força de sua própria intensidade.

Claro que nós, pobres mortais, também temos os nossos momentos de rejeição pelos demais, essa não aceitação generalizada não é privilégio apenas dos grandes gênios.

Perdemos tanto tempo não aceitando quem os outros são e mais ainda não aceitando quem nós somos. Nos esquecemos diariamente que a felicidade consiste basicamente em simplesmente ser.
Evidentemente ninguém é apenas uma coisa só a vida toda, aliás, ninguém é uma coisa só hora nenhuma. Mudamos nossos gostos, nossos afetos e opiniões, a cor dos cabelos, a maneira de nos vestirmos, muda o tempo, os dias, e com eles as vontades, mas não a verdade de que nada altera o que essencialmente temos por dentro.

E esse mundo interior que cada um traz em si, feito de incertezas, emoções, tristezas, alegrias, desejos e contradições torna cada ser único, mas não imutável dentro de suas expectativas e percepções do que há aqui fora.

E acreditem, o que temos por dentro se mostra o tempo todo, se faz presente, exige o cumprimento das nossas urgências mais íntimas e reveladoras, de forma imperativa e visceral.
E nem adianta pensar que dá pra guardar e esquecer tudo lá dentro, o que somos, o que desejamos, uma hora ou outra, aflora seja numa úlcera de magoas e palavras reprimidas, na depressão de um amor não vivido, ou num câncer da vida adiada e contida por falta de coragem, de tempo, ou por outra desculpa qualquer, que nos tornam exatamente isso, uma coisa qualquer.

Tão inevitável quanto a morte e a vida, é o compromisso pessoal e intransferível de viver o que somos, ninguém foge de si mesmo, uma hora a gente se encontra, se reconhece e se assume, tanto fora quanto dentro, cada um com seu anverso e seu avesso.

*Aline Rodrigues é funcionária pública no Detran-DF. Filha do grajauense João Éden Rodrigues Lima. Artigo publicado no jornal impresso, edição 18

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