FABRÍCIO FRANÇA COSTA

Sabe àquela hora, quando você está arrumando os livros de sua biblioteca pessoal e de repente descobre ali, dentre o acervo, uma obra que o chama atenção, toda empoeirada, esperando ser lida; e, então, você começa a folheá-la e não consegue mais parar de ler, deixando de lado todo o resto do trabalho, porque, simplesmente, se esqueceu do tempo com as palavras? Pois é, isso aconteceu comigo não faz muito tempo. Porém, antes de pensarem que o livro seja de algum Camões ou Alencar, digo que não. Ou melhor, essa obra é de um conterrâneo, Antônio Eduardo Oliveira Nava, intitulada Vida.

Vida é uma obra “post mortem” que apresenta alto valor literário em suas poesias e crônicas, incrementada pela paixão que o autor tinha do viver, pela família, sua terra natal e pela literatura. Assim, como bem descreveu o poeta e jornalista José Ubirajara Cunha na apresentação do livro a respeito do escritor e compositor grajauense: “Portador de uma poesia leve, sedimentada de paixão, e de inspiração natural daqueles que, deixando de lado a preocupação com as Escolas Literárias e metrificações, conseguiu levitar nos seus sentimentos de filho, irmão, marido, pai e heróico homem das leis, fruto do seu estudo acadêmico.” Além de ter sido o entusiasta que era, vale lembrar que o escritor, também, fora o primeiro Juiz de Direito nascido na cidade, “No mundo social do qual não posso fugir à participação, sob pena de confinamento pessoal, tenho ligações extremas com a Igreja, Clubes Sociais e de Serviço, Sociedades Caritativas”, escreveu Eduardo Nava em expediente dirigido ao Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão.

A obra se divide entre: prefácio, crônicas, poesias e fotografias. O prefácio se configura de algumas homenagens póstumas feitas por amigos ao poeta, como o João Batista Guará, Mercial Arruda, Jorge Maluf… dentre outros; acrescido de uma pequena biografia reflexiva – um breve retorno ao passado- e, algumas memórias sobre o nosso rio, carnaval, história e literatura. As crônicas, que, também, configuram o livro, mostram o lado prosador do escritor: Diálogo das Máquinas, Um gato vadio, Quem não faz leva, são algumas delas. As escolhas aqui foram pessoais. Na poesia, está sendo a maior parte da obra, mostra a visão poética do autor em relação à vida, relatando sobre vários temas: amizade, amor, sofrimento, tempo, sentimentos, recordações, família, saudade, medo, ceticismo, felicidade, etc.. Eis aqui algumas das quais me chamaram mais atenção: Vida – soneto que deu título ao livro –, Noite de Natal, Os Esporões da Arraia, Ao meu Pai, Meu Interior, A Pracinha – está constando logo abaixo –. E, finalizando a obra, há uma parte somente de fotografias que mostram imagens do poeta com família e amigos.

(Antiga Praça Raimundo Simas)

A PRACINHA
Sempre que anoitecia,
eu arribava para a pracinha,
indo encontrar a turma minha.

Sentávamos no muro alto,
feito de cimentos e pedras duras,
para conversarmos leviandades
do dia a dia de cada um,
ou, até, para “curiar” o namoro
dos casais mais românticos,
por trás dos elementos vazados.

O bar enriquecia o ambiente,
com bebidas de todas as espécies
e muita gente a consumi-las.

Os canteiros eram floridos
 por margaridas, rosas e jasmins,
que expeliam um perfume fatal
e reforçavam as juras eternas
e os pactos amorosos das paixões.

Ah, como eu amava a pracinha
e vivia feliz naquelas noites,
que passaram com o tempo
e eu não percebi que tudo mudou…

De repente, voltei:
não vi a pracinha de outrora,
com seus flamboaiãs floridos,
que forneciam sombras
durante o ano inteiro.

Vi outra praça nova,
diferente daquela que guardei;
sim, porque outras crianças    
 já a tomaram para si,
e sinto-me um estranho,
pois mesmos com canteiros,
 flores excêntricas e novas,
nada é igual ao passado
que construí em vastas luas.

Hoje piso temeroso e tímido
o chão novo, de novas pessoas
e não ouço os casais apaixonados.
Será que eles existem?

Hoje não toco as flores viçosas,
porque não sinto seus aromas.
Sinto a saudade atroz,
sempre que passo a pensar

que desmoronaram a pracinha

que eu amei em tantas primaveras.

Ah, o amor antigo é sólido
e deixa raízes profundas e fortes,
que durará muitos sóis,
para que um novo amor
consiga apagar do pensamento
a lembrança de um tempo lindo!
                               
                                 (Antônio Eduardo Oliveira Nava)

(Eduardo Nava- desfile de escola de samba em Grajaú)

SENTIMENTOS
Dos sentimentos ainda sou o amor
porque tem cor
tem labor, tem sabor,
tem dor, tem pudor
E também dissabor…!

Este breve artigo objetivou apenas mostrar que em Grajaú, também há escritores e poetas (dignos deste título). Ou seja, temos nossa própria cultura, posto que, às vezes, fica esmaecida em meio a outras fontes culturais vindas de fora, e isso tem como consequência a supervalorização do novo e a perda da “Memória” artística de nossa Grajaú. Tanto dos ilustres que já passaram por aqui quanto dos que ainda se encontram nesta terra. Portanto, como bem disse Eduardo Nava em carta a outro honrado homem das letras grajauense, Francisco Rosas: “E lembre-se: povo sem história é povo sem memória.”

Vale a pena à leitura da obra. Recomendo.

Deixo meus sinceros cumprimentos a todos os familiares do Poeta que foram os responsáveis pela publicação do livro!

*Fabrício é professor de português da rede pública de ensino