Início do século XX. Contexto histórico mundial marcado pelas grandes guerras. O Brasil passa por transformações na cultura, política e indústria. Na principal cidade do país, jovens querendo destruir a velha arte, que tinha como paradigma à européia, para criar uma forma de expressão artística genuinamente brasileira. Neste cenário, surge um novo estilo de vida bastante conturbado para todos que residem na Pátria Amada.

Nesse mesmo período, na região sul do estado maranhense, alto sertão, mais especificamente no município de Grajaú, nasceu João Viana Guará, aos seis de outubro de 1916. Filho de José Pereira Guará e Amélia Viana Guará ambos residentes ali. Fez os primeiros estudos em sua terra natal, onde, desde cedo, mostrava pendor para as letras.

Durante seus anos escolares, em Grajaú, pouco se sabe da infância do poeta, entretanto, valem as palavras de seu amigo de estudos secundários, Antônio de Oliveira, que o descrevera com bastante maestria: “[…] Sua infância deve ter transcorrido como a de todos os garotos do interior maranhense: armando arapucas para pegar jaós, nambus e perdizes, caçando, de bodoque em punho, pequenos animais e banhando-se nas lagoas e riachos […]”. Por conseguinte, passado essa efemeridade e com o intuito de dar continuidade aos estudos, decide morar em São Luís. Matricula-se na escola Arimatéia Cisne, depois, no Ateneu Teixeira Mendes.

Viana Guará, nessa fase da vida, já escrevia e declamava seus poemas “saudosos” sobre sua distante terra natal, nos encontros que tinha com amigos após as aulas, no Largo do Carmo, onde se reuniam estudantes de várias escolas para conversas compridas na companhia de cigarros e poesias. Consequentemente, após esta época vindoura e ao término do curso ginasial, o poeta percebe que é hora de dar mais um passo em sua vida. Muda-se para Recife, PE, com o intuito de fazer-se advogado. A escolha da instituição universitária é simples: queria adquirir conhecimentos onde alguns dos seus grandes ídolos da literatura nacional haviam estudado ou lecionado – Tobias Barreto, Fagundes Varela, Castro Alves.

Sua terra, infância, costumes, saudades, amigos, o rio e escritores nacionais foram fatores que influenciaram, mais do que nunca, o escritor em sua arte, que se mostra, às vezes, de exaltação: “Grajaú. Velho atalaia dos sertões/ beijando o panorama da cidade/ desliza-se cantando mil corações/ e encerrando o poema da cidade…”, noutras, bem saudosistas “ É triste viver longe/ Enamorado de belezas já fui/ Os passarinhos/ sentem no meu cantar de apaixonado/ muitas saudades dos ditosos ninhos.” Contudo, por ironia do destino, assim como Álvares de Azevedo, principal poeta ultra-romântico brasileiro, nosso conterrâneo tem de interromper o curso de Direito, no terceiro ano, por moléstia. Por conta disso regressa a Grajaú para não mais sair, pois as complicações levaram-no ao falecimento, aos 24 anos de idade.

Capa do livro Poeira Dourada

“Poeira Dourada”
É uma obra “post mortem” que visa atender ao pedido de Viana Guará em um de seus escritos “Buscai um dia os meus papéis dispersos […] encontrareis de certo uns trapos e entre as traças vereis, desses farrapos, a poeira dourada de meus versos.” ( este poema encontra-se na íntegra, logo abaixo) O livro é composto por prosa e poesia, esta a maior parte, na qual predominam alguns sonetos que foram criados durante o curso da enfermidade do autor.

Percebe-se claramente nas poesias de Viana Guará suas múltiplas experiências de vida, paradoxalmente num curto espaço de tempo. Teve experiências com: a morte – “Morto meu pai, – o meu maior amigo, que foi também meu carinhoso abrigo para aventura dos primeiros anos […]”; a saudade – “Berço! Terra das minhas ilusões […] saudoso ninho de felicidade.”; o amor – “Amo-te, oh cor das láteas nebulosas/ Entre lençóis de espumas, guirlandadas […]”; a arte – “Ser poeta é ser um mártir, ser ditoso/ é viver n´asa dum padecimento […]”; a despedida – “Adeus, adeus, eu vou partir chorando/ não mais verei o teu semblante amigo […]” etc. Ou seja, apesar de cedo ter cerrado os olhos para vida, não lhe faltaram inspirações poéticas.

Poema retirado da obra Poeira Dourada de Viana Guará
Grajaú
Estradas abertas nos desvãos sombrios
Entre coivaras, tucuru´s e caçapavas,
Acordando às manhãs
Com o matraquear das tropas
E o estalejar das tacas,
Visando, nas quebradas dos lubungos, a grinalda cinzenta de poeira,
O rastejador constante dos tropeiros:
– Eis minha terra!
Cantigas de xexéus e jaçanãs a beira de irapós
Vigilengas rústicas dormindo
À sombra das palmeiras.
As correrias dos titãs do aboio
Vestidos nos gibões de couro cru…
Asa procissões de igarités, rasgando
O segredo do rio,
Entre as cantigas tristes dos vareiros;
A rebeldia das itaipavas:
– Eis minha terra!
A igreja festejada de andorinhas,
  
Com um velho sino,
Nos altos da cidade, entre verdores,
De mangueirais, oitis e amendoeiras,
Pitombeira, – Tarrafa, Porto Grande
 Madeira, Tresidela,
E a rua da aldeinha, em reboliço,
A vareiama que chegou cansada
Bebendo pinga nas tavernas:
                                            
 – Eis minha terra!                                                
Outrora a história triste de cangaço,
As lendas das tocaias…
Malocas agrupadas para guerras
Com pontas e batins nas canajubas…
Hoje, a vertigem de um comércio impera
Deixando nas rechãs, nos tabuleiros,
A sinfonia máxima do progresso,
O ritmo mecânico da vida:  – Eis minha terra!
Recebe, ó minha terra, do teu filho
O canto da saudade…
Canoeiros, flecheiros, meus irmãos,
Sinto o calor de vossas atitudes,
Pois minha alma cabocla
Guarda, latente, a audácia dos timbiras
E a timidez dos índios guajajaras!